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26/01/2012


 
 

ARTIGO PUBLICADO

 

A NOVA-VELHA ESTRATÉGIA DA DIREITA E AS ELEIÇÕES

Francisco Ramos Neves - Professor de filosofia – UERN

professor.ramos@hotmail.com

 

               Pelos bastidores já se anuncia a nova estratégia da direita e da ultradireita neoliberais para as eleições vindouras. O partido Democratas (DEM) que surgiu tentando disfarçar sua origem autoritária de sustentação e patrocínio da ditadura militar sob a sigla da velha ARENA (triste lembrança do antidemocrático bipartidarismo do regime militar), passou sua máscara para a legenda do falido e desacreditado PDS, que depois se travestiu com a insígnia econômica do modismo do liberalismo inventando a sigla PFL, agora, aos poucos, mostra sua cara. Mostra sua cara para os que só olham a superfície da política, tais como aqueles que ao olharem para uma floresta e só veem árvores, parafraseando o filósofo alemão Hegel. Para os mais atentos na política que ao olharem para uma floresta veem mais do que árvores e percebem a urdidura e a trama das suas relações com o todo, a verdadeira cara do DEM sempre esteve à mostra. O apoio deste partido às propostas mais antipopulares no cenário da política nacional e internacional, sua aliança em torno dos movimentos em defesa no neoliberalismo e de toda prática econômica da privataria orquestrada em nosso país desde longos anos. Sua cara esteve à mostra quando do seu apoio à candidatura denominada de DEMOtucana do Serra (PSDB), o maior entreguista do patrimônio e das riquezas naturais da nossa nação nos últimos tempos. A verdadeira cara do DEM, que abriga e defende os ideais dos maiores detentores do poder sobre o capital financeiro em nosso país, sempre esteve à vista de todos em sua constante reacionária atitude contra as recentes mudanças sociais, políticas e econômicas em nosso país que o elevou à vanguarda econômica das grandes nações do mundo. O DEM não consegue se esconder quando, de maneira mesquinha, combate e tenta atrapalhar o governo popular presidido antes por Lula e agora por Dilma, que alcançaram os maiores índices de aceitação e satisfação por parte do povo e dos setores críticos e sérios da sociedade civil no Brasil e no mundo. Tudo isto sem falar nos atos isolados que desmascaram a origem do DEM como foi o caso do Decreto imposto pela governadora, filiada a este partido aqui do RN, que tentava proibir o livre direito de manifestação do povo insatisfeito com seu governo.

            A nova estratégia da Direita e da ultradireita neoliberais em nosso país e aqui no RN é a mesma e velha estratégia de sempre: se unirem e revelarem a falsa rivalidade entre si para combaterem o crescimento da esquerda e dos movimentos populares. A aliança proclamada e já em execução do PMDB com o DEM é prova incontestável desta nova-velha estratégia. Fala-se, inclusive, em fusão dos dois partidos. O PMDB transfigurado desde o fim do antigo MDB, que abrigava algumas forças políticas de esquerda no combate institucional e eleitoral aos defensores e protagonistas da ditadura militar, sempre se preocupou em estar fisiologicamente ligado aos governos de maneira sucessiva. E agora suas principais lideranças sorrateiramente articulam com o DEM alianças em nome dos princípios neoliberais em jogo e ameaçados pelo avanço das conquistas sociais que beneficiam a maioria que sempre foi excluída das condições mínimas de dignidade e cidadania. É de fato clara esta estratégia sobretudo quando estão comprovados internacionalmente os avanços e ganhos sociais e econômicos que o Brasil conquistou desde o governo Lula. Qual o interesse do PMDB em abandonar este projeto auspicioso, de beneficiamento das camadas populares que crescem em seu poder aquisitivo adentrando em patamares mais elevados de ganhos sociais e econômicos, se não for em nome dos princípios elitistas do capital financeiro e do neoliberalismo que agoniza em crise?

            Desde muito tempo percebemos na política geral e particularmente no RN as aparentes rivalidades radicais  das oligarquias entre si e que se desfazem em novas alianças político-eleitorais, também entre si. Infelizmente estas alianças não são para garantirem projetos de governabilidade e sustentabilidade social e política dos interesses dos governados, o que seria louvável, mas para manterem o status quo e o poder oligárquico e secular de suas famílias que dominam a política local.  Mas, como em outras regiões do país velhas oligarquias têm caído, mesmo com suas alianças entre si, podemos ter esperança que o RN também mude seu cenário político e seus repetidos nomes oligárquicos no poder. Podemos e devemos acreditar que o RN se erga para uma nova democracia com novos nomes e verdadeiros ganhos sociais para todo o povo e não apenas para pequenos grupos familiares locupletados no poder.

PUBLICADO EM: O JORNAL DE HOJE, Natal. 19, jan. 2012

Categoria: ARTIGOSRAMOS
Escrito por Francisco Ramos Neves às 00h23
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02/01/2012


 
 

ARTIGO PUBLICADO

 

BEM-VINDO AO ATIVISMO QUÂNTICO

Francisco Ramos Neves

Professor de Filosofia – UERN – professor.ramos@hotmail.com

 

                Há algum tempo já escutamos e lemos sobre física quântica e o quanto ela transformou o mundo das ciências no novo milênio. A física quântica não apenas colocou por terra os velhos paradigmas da ciência tradicional de Isaac Newton como também sua pretensão de verdade incontestável e poder sobre a realidade submetendo-a a um mecanismo material de progresso irrefreável fora do controle e da intervenção humana. Para melhor situar este debate no campo das teorias da física e suas transformações paradigmáticas, que enaltecem e exemplificam bem a teoria sobre a estrutura das revoluções científicas de Thomas Kuhn (1922-1996), ocuparemos outro artigo posteriormente.

Agora pretendo apresentar inicialmente alguns elementos do pensamento sobre o ativismo quântico defendido pelo indiano Amit Goswami, Ph.D. em física quântica pela Universidade de Calcutá da índia e professor emérito da Universidade de Oregon nos EUA. Publicou diversas obras focando a relação entre física quântica, espiritualidade e consciência. Participou da produção e concepção do filme, sucesso nos EUA e Canadá, “What the Bleep do We Know?” (2005), lançado em DVD no Brasil com o nome “Quem somos nós?”. Goswami passou por diversas transformações em sua vida, filho de guru brâmane hinduísta, seguiu caminhos diversos; sendo materialista por longo tempo até retornar do “desvio”, para reencontro com seu mundo original a partir do abandono da “acomodação mental” que o cegara no competitivo carreirismo tradicional da vida acadêmica submetida ao mero racionalismo, como o mesmo relata.

Goswami parte dos paradigmas da física quântica, como “a física das possibilidades”, como o mesmo afirma em sua recente obra “O ativista Quântico”(2011). A física quântica nos traz inúmeros e complexos desafios e muitos físicos tradicionais “deixam de quebrar a cabeça com os paradoxos da física quântica e sucumbem à solução newtoniana” (GOSWAMI. O universo autoconsciente. 2008, p.7). Nesta concepção quântica se evidencia a primazia da consciência sobre a matéria e a tese de que o universo é autoconsciente. Portanto, se diferencia radicalmente de um dualismo que separa mente e corpo como a tradição cartesiana formulou e combate o unilateralismo reducionista do materialismo. Consciência e mundo, pensamento e matéria não se separam. Podemos falar em um idealismo monista (unidade entre matéria e ideia) bem parecido com o idealismo de Hegel, diferenciado pelo método aplicado. É a própria consciência em um plano metafísico que cria e funda o mundo físico. Os estudos desta concepção envolve física, psicologia, filosofia, misticismo, biologia, neurofisiologia, inteligência artificial, matemática quântica e por que não dizer antropologia e sociologia; se enquadra bem na teoria de uma ciência da complexidade como nos apresenta Edgar Morin.

O ativismo quântico reestabelece (faz ver) o elo esquecido e velado pela tradição da filosofia ocidental entre ciência e espiritualidade. Desvelamento da estrutura além da estrutura dos átomos, que é a própria consciência. De acordo com Goswami, a física quântica nos ensina que a consciência está presente em tudo, ela pode influenciar e determinar a realidade das coisas. Podemos, enquanto seres conscientes, participar das mudanças das coisas. E pelo ativismo quântico devemos participar destas mudanças pretendidas das coisas. Nossas ações individuais somam-se a outras ações, pois estamos todos interconectados em uma “consciência quântica superior”, onde somos todos um, mesmo com nossas diferenças, e somos um por que somos todos diferentes, e é isto que nos identifica. Em contraposição ao que prega o realismo materialista e mecanicista do cientificismo podemos interferir na realidade dos objetos. Assim, o ativismo quântico orienta que devemos nos reconhecer enquanto sujeitos livres dos determinismos causais exteriores e devemos agir com criatividade inventiva e responsável eticamente para transformarmos as coisas. O ativismo quântico nos ensina a pensar e agir além da mera racionalidade cega da ciência tradicional. O próprio Einstein, citado por Goswami, afirma que não descobriu a teoria da relatividade apenas com o pensamento racional, foi além dele, recorreu à imaginação e à criatividade.

A criatividade representa o “salto quântico” no significado mental. Criatividade é livre arbítrio em uma relação de descontinuidade como nas artes e em outras áreas da ação humana. O que aprendemos desde a infância faz parte da memória experimentada continuamente, mas momentos de saltos quânticos surgem quando recriamos novas experiências e somos nós mesmos sendo diferentes. Não somos máquinas, mas seres humanos. A racionalidade fria da técnica nos fez esquecer nossa essência humana, como bem enfatizou Heidegger em sua “Carta sobre o Humanismo”, e este esquecimento nos traz o perigo da desumanidade como percebemos nos tempos atuais. Por fim, pelo ativismo quântico, Goswami projeta que: “se as pessoas comuns realmente soubessem que consciência, e não matéria, é o elo que nos liga uns aos outros e ao mundo, as opiniões delas sobre guerra e paz, poluição ambiental, justiça social, valores religiosos e todas as demais atividades humanas mudariam radicalmente” (Universo Autoconsciente, p. 25). Que o novo ano nos traga um pouco mais de consciência coletiva, social e ética em um transformador ativismo quântico.

PUBLICADO EM: O JORNAL DE HOJE. Natal. 01.jan.2012. p. 02

Categoria: ARTIGOSRAMOS
Escrito por Francisco Ramos Neves às 19h54
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09/12/2011


 
 

PUBLICADO EM JORNAL

CRISE MUNDIAL E GLOBALIZAÇÃO (I)

Francisco Ramos Neves

Professor de Filosofia – UERN – professor.ramos@hotmail.com

 

Com a crise financeira internacional que assola diversos países, inclusive os Estados Unidos da América, que se apresenta como uma grande potência, se faz necessário inicialmente  abordarmos o fenômeno da globalização para entendermos como a crise financeira de uma grande nação pode afetar muitas outras como em um efeito dominó. A globalização não é um acontecimento novo na economia e política internacionais; ela já se manifestou de outras formas, inclusive, em sua forma nua e crua, como imperialismo. Agora com o sistema capitalista redefinido, sob um olhar crítico e atento, ela se apresenta como globalização neoliberal.

Com a globalização atual surgem os grandes blocos econômicos como forma de enfrentamento unificado das sucessivas crises internacionais e reorganização da nova Ordem mundial, sob controle de um sistema financeiro internacional. A finalidade primeira é a de melhorar as relações comerciais entre os países membros, geralmente vizinhos, rompendo com os limites das fronteiras e superando as barreiras alfandegárias, estabelecendo a queda e até o fim de impostos ou tarifas nas transações comerciais entre eles. Embora os blocos econômicos correspondam à situação atual eles não são invenções modernas; eles começaram a surgir embrionariamente desde fins da II Guerra Mundial, juntamente com a articulação e implantação do neoliberalismo no mundo.

O primeiro organismo, que já incorporava a ideia dos blocos econômicos, pioneiramente data de meados dos anos de 50 com a formação do Mercado Comum Europeu também denominado de Comunidade Econômica Europeia; que na década de 90 se amplia e se consolida como União Europeia (UE), com o estabelecimento de uma moeda única (Euro), com mais de 20 países e como grande modelo de integração exemplar para os demais Blocos. Também temos outro exemplo antigo como a ASEAN (Associação das Nações do Sudeste Asiático), que surgiu na Tailândia em 1967 se ampliando gradativamente com a Indonésia, Malásia, Filipinas, Cingapura. Tailândia, Brunei e mais recentemente Vietnã, Miramar, Laos e Camboja; mais recentemente muitos destes países vão compor juntamente com outros os famosos Tigres Asiáticos,  moderno bloco de produção e exportação de produtos eletrônicos e têxteis, que se beneficiaram com o grande investimento e com a transferência de tecnologia estrangeira. Outro bloco antigo surgiu em 1969 a partir do chamado Acordo de Cartagena resultante de um pacto entre os países andinos formando a Comunidade Andina (Bolívia, Colômbia, Peru, Equador e outros da região). Em 1973 um outro bloco também surgiu, o Mercado Comum do Caribe (CARICOM). Os mais recentes são o NAFTA, sigla de North American Free Trade Agreement (Acordo de Livre Comércio da América do Norte) formado em 1992 pelos EUA, Canadá e México; a Cooperação Econômica para a Região Ásia-Pacífico – APEC, iniciada em 1989 e formalizada em 1993; a Comunidade dos Estados Independentes (CEI), constituída em 1991 pela maioria das repúblicas da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – URSS; o Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) que a partir de 1991, com o Tratado de Assunção, inicia com Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai a reunião comercial e política dos países da América do Sul; e em 1992 a formação da Comunidade da África Meridional para o Desenvolvimento (SADC) que surgiu 17 anos depois da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (ECOWAS). Enfim, atualmente muitos outros Blocos existem e estão sendo formados em todos os continentes, com distintos matizes ideológicos e políticos, cuja análise não caberia nos limites deste artigo jornalístico. O que importa é que da crescente escalada da globalização neoliberal surgiu o G8, Grupo dos 8 países mais ricos industrialmente, articulado desde 1975, composto inicialmente por Alemanha, França, EUA, Japão, Inglaterra, depois se amplia com a inclusão da Itália e do Canadá e em 1995 com a Federação Russa. É importante evidenciar que todas as antigas e recentes propostas de formação de blocos econômicos sempre enfrentaram e enfrentam problemas de diversas ordens, tais como a dificuldade de integração entre nações com grandes disparidades culturais, econômicas e sobretudo políticas, além das questões de ordem jurídica. Muitas chegaram a ser dissolvidas devido a problemas intransponíveis, como foi o caso da antiga Associação Latino-Americana de Livre Comércio – ALALC, formada em 1960, pelo Tratado de Montevidéu, e dissolvida logo depois. A dissolução da ALALC deu margem para a formação de outra proposta, em 1980, a ALADI (Associação Latino Americana de Integração), que também não durou muito tempo, como nos relatam Menezes e Pena Filho no livro: “Integração Regional: os Blocos Econômicos nas Relações Internacionais”. Também podemos evidenciar que em quase todos os Blocos formados ocorre a ingerência de grandes nações como os EUA que detêm grande poder no mercado, impondo, assim, sua presença política ou comercial na relação destes Blocos com o mundo. Algo do tipo acontece na América Latina, onde os norte-americanos tentam impor a formação da ALCA com sua presença no controle.

Com a globalização neoliberal a formação dos Blocos Econômicos visava o fortalecimento das economias dos seus membros e melhoria de vida para os seus povos, mas o que se percebe é uma total manipulação e controle do mercado pelas nações mais poderosas para atenderem aos seus interesses internos. Muitas nações periféricas, como nos diz Boaventura de Sousa Santos, padecem com a fome de lucros e riquezas por parte das grandes nações centrais com suas politicas protecionistas e unilaterais, que em vez de reduzirem as desigualdades econômicas e sociais, radicalmente as ampliam, cada vez mais. Veja o exemplo do México no interior do NAFTA que apenas serve de mercado consumidor e produtor das riquezas que alimentam o poderio norte-americano, onde seu povo é impedido de habitar, viver e transitar livremente. A integração cultural e comercial não acontece verdadeiramente, apenas ocorre a integração da crise, que em efeito dominó parte dos problemas referentes ao déficit e endividamentos internos das grandes potências recaindo com suas nefastas consequências no bolso do povo dos países periféricos dependentes. Com a globalização neoliberal os pequenos países pagam a conta dos grandes a partir de suas dependências aos órgãos financeiros internacionais como o FMI e o Banco Mundial. Órgãos estes gerenciados pelas grandes potências, mas que agora padecem com crises internas, oriundas de uma nova onda neoliberal hegemonizada por uma nova forma de capital transnacional e que escapa do controle da instituição do Estado-nação, que é o capital financeiro.

 

Publicado em: O JORNAL DE HOJE. 26/AGO/2011. p. 02

Categoria: ARTIGOSRAMOS
Escrito por Francisco Ramos Neves às 00h58
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CRISE MUNDIAL E GLOBALIZAÇÃO (II)

Francisco Ramos Neves

Professor de Filosofia – UERN - professor.ramos@hotmail.com

 

 

Um fantasma ronda o mundo, este fantasma chama-se crise econômica global. Tempos sombrios pairam sobre pequenas e grandes nações do mundo inteiro com o avanço da crise que cresce a cada dia e começa a abalar até mesmo os EUA e a Itália que fazem parte do G8. Como se percebe, nenhum Estado está imune a esta crise que tem se mostrado recorrente, cíclica e insuperável mesmo nos marcos do sistema financeiro internacional neoliberal vigente. Podemos falar com precisão que esta crise é patrocinada por determinados grupos familiares representantes da chamada banca privada, detentores do controle sobre o capital financeiro.

Outras crises econômicas já haviam abalado o capitalismo, que, como Karl Marx previa, seriam cíclicas enquanto durasse o modelo de produção “anárquica” baseada em um sistema de mercado livre e de Estado mínimo, ausente quase que por completo sem qualquer forma de intervenção, de acordo com o princípio liberal do laissez faire, laissez passer dos franceses. A antiga fórmula marxista para explicar a crise partia da constatação da desregulamentação liberal da economia de mercado, que o lançava e o deixava em seu próprio percurso movido por suas próprias leis internas. Onde, além de outras inúmeras causas, com a sede de produção, lucro e acumulação, os detentores dos meios de produção (os capitalistas), provocavam, com a “anarquia da produção”, alternâncias entre excesso de produção de mercadorias (oferta) e baixa demanda pelas mesmas (procura), que como consequência acarretavam as crises econômicas. Tivemos, inclusive, situações esdrúxulas, onde produtores jogavam fora parte da produção excedente para, na tentativa de correção tardia do erro, forçarem a crise de oferta e aumentarem a demanda para se garantir o preço desejado da mercadoria, uma forma enlouquecida e diferenciada de obtenção de mais-valia (lucro para alguns e roubo para outros, o que podemos chamar de terrorismo de mercado). Esta ideia liberal de economia representava uma tentativa de combater e expurgar qualquer tipo de planificação do mercado, por esta ser a proposta socialista apresentada como alternativa e superação do capitalismo. O liberalismo desde o seu início passou por momentos de crises constantes e se demonstrou inviável, desde que vivenciamos a sua maior e destruidora crise na década de 30 (Século XX), que teve como marco decisivo, em 1929, o grande crash da Bolsa de Valores de Nova York.

 

Fato este que levou muitos especuladores ao suicídio e disseminou o desespero e incertezas agonizantes em toda população, desde alguns banqueiros aos mais simples poupadores, que corriam aos milhares, atropelando quem estivesse na frente, enfrentando gigantescas filas para tentarem sacar suas suadas economias aplicadas nos bancos, fazendo da pujança financeira de Wall Street um palco de angústias e lágrimas. Os capitalistas tiveram que repensar seu modelo econômico do liberalismo inicialmente pensado por Adam Smith e outros economistas e filósofos do iluminismo no Séc. XVIII, tendo John Locke como um grande precursor. Perceberam que a teoria do Estado mínimo e ausente no mercado facilitou o surgimento de elementos destruidores das riquezas das nações (contrariando suas teses originais) em prol da concentração do poder econômico nas mãos de indivíduos que se beneficiaram com o advento da iniciativa privada. Neste sentido, na tentativa de controlar as crises de um mercado desregulado, mas sem alterar a forma de exploração e concentração financeira nas mãos de poucos do setor privado, surge o neoliberalismo.

O neoliberalismo surge como continuidade do liberalismo, mas com algumas inovações para manter o status quo. A ideia era a de inserir doses de intervenções na regulação das regras de mercado, para controle da produção e maior domínio nas relações comerciais internacionais. A regulação do mercado pelo neoliberalismo planeja, como em uma espécie de planificação híbrida (tendo em vista que o modelo de planificação total, com o fim do mercado, como no socialismo real, demonstrou-se inviável, embora não integralmente imperfeito), a produção no mercado de cada país, procurando evitar, inclusive, o desequilíbrio entre oferta e procura. Como exemplo podemos ver que determinados países ou blocos de países tornaram-se por excelência produtores de certas mercadorias, ou então cada país membro deste planejamento produz um elemento específico de um certo produto ou cuida de sua montagem, como ocorre no ramo da informática e no ramo de automóveis.

O neoliberalismo engendra sua globalização como forma de controle do mercado a nível mundial, e tem como maior ferramenta a implementação dos blocos econômicos, pelos quais a direita e as grandes potências se organizam para manterem seus poderes e fortalecerem seus mercados, evitando conflitos comerciais e tributários entre países vizinhos que possam minar suas forças de acumulação e expansão. É claro que que nesta era globalizante os países de orientação de esquerda, emergentes, também procuram se articular em blocos econômicos para enfrentamento do poder capitalista capitaneado pela direita neoliberal. Também na atual conjuntura globalizante nenhuma proposta de hegemonia política, econômica e social pode negar a perspectiva de uma ordem financeira em escala mundial, que no presente é de controle da ultradireita neoliberal.

Com a atual crise mundial crescente e recorrente, pois mal superamos os efeitos da crise de 2008 e já se inicia uma nova, percebemos que o neoliberalismo não é capaz de resolver os problemas apresentados pelo capitalismo. A miséria social e exploração se ampliam cada vez mais (sobretudo nos países sob governos neoliberais), vitimando não apenas o povo e os países periféricos, mas também as grandes nações que têm os seus Estados à mercê das incertezas do mercado e das ambições dos detentores do capital financeiro. É o capital financeiro que move a ciranda financeira especulativa fazendo dos mercados um grande cassino (onde os donos sempre ganham) para deleite das grandes corporações e grupos familiares que o controla. É um capital que vai além do poder econômico dos Estados, cujo montante somado ultrapassa em muito o valor do Produto Interno Bruto (PIB) dos oito maiores países (G8). Os Estados-nações são usurpados em seu poderio econômico, são quebrados, embora alguns destes Estados forneçam aparato militar, bélico e geopolítico para manterem a conquista de mercados e concentração de riquezas nas mãos de poucos. Os países submetidos à política econômica e aos ditames do FMI e Banco Mundial têm suas finanças sugadas para manutenção dos privilégios econômicos e enriquecimento das grandes corporações. Como é o caso da Grécia, que vive hoje o que o Brasil vivia no passado, crises infindáveis, ausência de políticas sociais e o povo nas ruas, manifestando-se contra a negligência do seu Estado quanto aos seus direitos mais elementares (saúde, educação, cidadania) e gritando palavras de ordem contra os organismos do sistema financeiro internacional do neoliberalismo: FORA DAQUI, O FMI!

Na verdade a crise mundial é a crise do neoliberalismo. O neoliberalismo está em crise e coloca seus asseclas políticos locupletados nos Estados para cobrarem e expropriarem recursos e riquezas alheias para resolverem seus problemas; para isto, a velha estratégia de invasões e guerras a países contrários à sua ordem ainda parece ser uma medida tardiamente e desesperadamente viável para seus interesses. Com esta faceta autoritária, o neoliberalismo, por sua globalização, tem se demonstrado ser uma versão moderna do velho imperialismo, mas, com maior sofisticação e mascaramento. Este novo imperialismo não é a fase superior do capitalismo como dizia Lênin, em relação ao velho imperialismo, mas apenas uma forma degenerada de sua manifestação.

 

Publicado em: O JORNAL DE HOJE. 07/OUT/2011. p. 02

 

Categoria: ARTIGOSRAMOS
Escrito por Francisco Ramos Neves às 00h50
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CRISE MUNDIAL E GLOBALIZAÇÃO (III)

Francisco Ramos Neves

Professor Filosofia – UERN  - professor.ramos@hotmail.com

 

 

Identificando a crise global como crise do neoliberalismo, procuramos agora refletir sobre sua origem. O neoliberalismo se desenvolve a partir de uma grande crise do liberalismo cambaleante. O capitalismo ainda agonizando pela II Guerra Mundial, que fora motivada principalmente pela disputa de mercados entre as grandes potências que se rivalizavam com suas barreiras protecionistas, tenta estabelecer uma proposta de saída da grande crise que abalou o sistema financeiro global como visto em Wall Street em 1929. Nos primeiros vinte e dois dias do mês de julho de 1944 um total de 730 delegados de 44 países (inclusive o Brasil) envolvidos na guerra reuniram-se no Hotel Mount Washington, na localidade de Bretton Woods em New Hampshire, nos Estados Unidos, para definirem uma Nova Ordem Econômica Mundial.

Hotel Mount Washington

O evento serviu de modelo para a formação da ONU, o que aconteceu no ano seguinte, embora com finalidades diferenciadas, mas com intenções idênticas em relação à ideia de controle e intervenção na autonomia política e financeira dos diversos países do mundo. A reunião se organizou a partir de diversas conferências denominadas de “conferências de Bretton Woods” resultando na constituição do “sistema Bretton Woods” de gestão internacional da economia global.

 

 

O acontecimento em Bretton Woods fora motivado sobretudo pelo temor de uma nova crise no pós-guerra, como a Grande Depressão econômica dos anos 30, anunciada também pelo mecanismo de mercado plenamente livre e em conflito por falta de uma intervenção direta do Estado, fruto dos seus caóticos princípios liberais. As propostas apresentadas visavam redefinir o modelo econômico vigente onde as disputas e as exorbitantes barreiras alfandegárias entre os países obrigavam-nos a estabelecerem a política da guerra financeira e comercial constante de empobrecimento do vizinho (beggar thy neighbor), para transferir a crise para o outro. Neste modelo liberal a competitividade desenfreada e desordenada engendra um mercado desregulado que provocava crises na produção, espirais deflacionárias, desemprego em massa e desespero no comércio mundial.

fotos dos conferencistas em Bretton Woods

 

A saída da crise para os conferencistas requeria práticas de ruptura com certos princípios vigentes e, como já tenho dito, aprendendo com a proposta marxista de planificação como solução para a anarquia da produção, adotaram regras de intervenção dos governos (Estado) sobre o mercado, mas que não rompessem com o capitalismo. O “sistema Bretton Woods” estabeleceu a partir de então as regras intervencionistas nas relações comerciais e financeiras no mercado mundial no sentido de quebra de sua liberdade tão apregoada nos pilares do velho liberalismo em crise. Duas figuras proeminentes do pensamento econômico liberal da época fizeram da reunião o palco de debate entre duas grandes potências: Estados Unidos e a Grã-Bretanha, representadas por Harry Dexter White e John Maynard Keynes respectivamente. Podemos adiantar que o debate não priorizou o peso inquestionável das ideias de um dos maiores, e porque não dizer do maior economista do Séc. XX, o Lord Keynes, que propós caminhos diversos, desenvolvimento e apoio finaceiro aos países sem condicionalidades e valorização das economias nacionais. O poderio financeiro, comercial e industrial dos Estados Unidos determinou os rumos do debate e garantiu as mais importantes decisões.

 

 

Keynes se dirigindo aos conferencistas

Assim, o evento marca a origem política do neoliberalismo como um novo sistema financeiro internacional e o controle dos mercados fora efetivado por uma globalização para quebra das barreiras e restrições ao fluxo de capital e dos conflitos comerciais entre os países, agora reunidos em grandes blocos econômicos. Dois órgãos reguladores e financiadores surgiram a partir daí: O FMI (Fundo Monetário Internacional) e o BIRD (International Bank for Reconstruction and Development), o Banco Mundial derivou deste. Estes órgãos deveriam servir para o desenvolvimento das nações, mas na verdade escondiam as intenções neoimperialistas das grandes potências de domínio de todos os mercados do mundo garantindo a predominância de grandes empresas multinacionias exploradoras e concentradoras, como se percebe hoje. Inclusive o padrão-ouro que servia de marco regulatório das relações comerciais e financeiras fora substituído pelo padrão ouro-dólar, impondo a moeda dos EUA como referência mundial, produzindo o efeito da dolarização das economias o que interfere nas decisões políticas domésticas. O FMI e o BIRD apoiam apenas quem se submete a todas as suas políticas para os diversos setores, inclusive para a educação, saúde e previdência; vide o acordo MEC-USAID no regime militar da década de 60 que aceitou interferências externas na reforma educacional do nosso país.

As economias nacionais ficaram à mercê da oscilação do dólar, o que gera o absurdo de ouvirmos críticas ao governo quando o valor do dólar cai ou quando a mesma moeda se valoriza demasiadamente, o que tira o foco da política econômica nacional. Cada vez mais percebemos que o neoliberalismo surge para redefinir os ganhos globais para o grande capital financeiro em contraste com a miséria crescente de diversos países. O neoliberalismo surgiu para tentar superar as crises do capitalismo, mas demonstra-se como a mais fatal crise da crise.

 

Publicado em: O JORNAL DE HOJE. 07/NOV/2011. p. 02

 

Categoria: ARTIGOSRAMOS
Escrito por Francisco Ramos Neves às 00h36
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CRISE MUNDIAL E GLOBALIZAÇÃO (IV)

Francisco Ramos Neves

Professor de filosofia – UERN

professor.ramos@hotmail.com

 

 

Ao fim destes artigos sobre a crise global que ameaça a paz dos países e a estabilidade vulnerável de suas economias não podemos negar e culpar a ideia de globalização, mas devemos julgar e condenar o modelo de globalização real existente que está sob a égide do neoliberalismo. A globalização é algo muito vital para a realidade atual; mas, a globalização com sua hegemonia nas mãos das elites neoliberais é destruidora da identidade do Estado-nação com sua soberania e identidade. O neoliberalismo faz da globalização não um universo de interações multilaterais, mas impõe uma tirania de uma cultura e um poder centralizador sobre as demais nações periféricas; submete financeiramente, via dolarização da economia, por exemplo, e pelo poderio bélico dos detentores do controle sobre o sistema financeiro mundial e de todos os mercados e economias domésticas. Ao falarmos da importância do Estado-nação e do respeito às economias domésticas não estamos falando em resgate de um nacionalismo monocultural e unilateral que já deu margem ao desenvolvimento de ideologias e políticas totalitárias pelo mundo. A intenção aqui é a de apontar os limites e os aspectos críticos e negativos da globalização, como é o caso do modelo neoliberal.

O pensador social Octavio Ianni, ao escrever sobre a globalização como novo paradigma das ciências sociais, nos alerta muito bem sobre o perigo de sua versão negativa, que, segundo ele: "à medida em que esta debilita o estado-nação, reduz os espaços da soberania nacional, transforma a sociedade nacional em província da global.” Neste sentido, na globalização do neoliberalismo, defendida e disseminada por partidários da Direita, as nações periféricas e emergentes são sugadas e exploradas para o enriquecimento e hiper concentração de renda nas mãos dos capitalistas selvagens, detentores do controle sobre o capital financeiro. É a estes que muitos políticos neoliberais no Brasil, como em outros países, querem entregar as riquezas nacionais, como é o caso da tentativa de privatização (entreguismo) da Petrobrás, da exploração do pré-sal e de outras riquezas essenciais.

Nesta era neoliberal vale distinguir poder financeiro de governo financeiro, para os que apontam suas desencontradas críticas a determinados governos como se estes fossem centros de poder. Governo financeiro que agora via Estado está sendo obrigado a intervir para certo controle planificador dos mercados, como falamos anteriormente, cuja natureza dos blocos econômicos e o sistema “Bretton Woods” são exemplos disso. Inclusive, certos governos financeiros (gestores de Estados) são instrumentalizados para protegerem e beneficiarem o grande capital financeiro, submetendo os interesses públicos aos excludentes interesses privados, o que alimenta cada vez mais a miséria social e a exploração da grande maioria da população.

Portanto, para enfrentamento da grande crise avassaladora que avança lentamente é necessário rediscutir o ideal de globalização necessário para uma nova era de estabilidade econômica e prosperidade social. Para isto, é fundamental uma nova globalização sob uma nova hegemonia ativa, onde o local, com suas diferenças, seja respeitado e contemplado no global. Assim, em uma nova sociedade global, como diz Octávio Ianni, a diversidade e a globalidade devem ser contempladas em uma simultaneidade e reciprocidade.

Também se faz necessário a rediscussão do papel do Estado, construindo políticas que o fortaleça e garanta a soberania e desenvolvimento nacionais com inclusão social e promoção da cidadania. O sinal de que isto é verdade está nos exemplos dos países fortalecidos na atualidade, que marcharam na contracorrente do neoliberalismo, contrariando e rompendo com o FMI e Banco Mundial, combatendo a dolarização da economia e implementando políticas econômicas de independência em relação aos efeitos “Bretton Woods”. Estes países investiram mais no setor social e no desenvolvimento interno, fortalecendo seu Estado. Estes países superaram e até deram lições de enfrentamento da crise para grandes nações, e foram os que menos sofreram e menos sofrem com a grande crise global do neoliberalismo, como foi o caso do Brasil nas atuais gestões políticas governamentais a nível nacional.

Evidências da importância do fortalecimento do Estado e ampliação de sua presença na economia pudemos observar no enfrentamento da crise de 2008, onde os Estados foram chamados a intervirem, contrariando a lógica do liberalismo econômico, base da nova ordem neoliberal, do Estado mínimo e ausente. Recursos públicos foram injetados no mercado para garantirem liquidez de capital e investimentos para incremento do consumo e consequentemente da produção. E agora, na zona do euro, os Estados estão se articulando para intervenção no mercado para contornarem a crise. No entanto, é fundamental uma nova hegemonia ética, intelectual e política de controle e poder para evitar a trama ardilosa da banca privada que se apropria das concessões do Estado, nestes momentos de crise. Como pudemos testemunhar, no caso do Brasil, as isenções e reduções de impostos e tributos, como o IPI dos automóveis e de outros produtos, não foram efetivamente repassados para a sociedade, só serviram para ampliar as riquezas de muitos empresários capitalistas que ganharam muito mais.

Por fim, para enfrentamento desta crise global o papel dos governos devem ser redefinidos para combate da atual ordem econômica mundial sob orientação neoliberal e devem somar forças para fortalecimento da categoria política do Estado-nação como parte de um todo coeso que respeite a diversidade dos países em uma nova globalização regida pelos princípios do Direito Internacional, tendo como base a declaração dos direitos humanos. Para isto, a ONU deveria ser repensada e ampliada, redemocratizada e respeitada por todas as nações, sem distinções ou exclusões, ou então desconstruída para dar lugar a  outro organismo internacional legalmente constituído que não seja um mero porta-voz de uma ou outra grande potência totalitária. A saída para a crise neoliberal está em uma tomada de posição no sentido de uma alternativa ao atual sistema, que seja diferente do capitalismo atual e do socialismo real como visto no mundo até nossos dias. Uma inversão para um modelo que garanta os direitos da grande maioria de acordo com o imperativo categórico kantiano do bem universal, o que só poderia ser administrado por uma sociedade baseada numa espécie de comunismo de Estado.

 

Publicado em: O JORNAL DE HOJE. Natal, 10 e 11/DEZ/2011. p. 02

Categoria: ARTIGOSRAMOS
Escrito por Francisco Ramos Neves às 00h17
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08/12/2011


 
 

ARTIGO PUBLICADO EM JORNAL

AINDA PODEMOS FALAR EM ESQUERDA E DIREITA NA POLÍTICA?

Francisco Ramos Neves

Professor de filosofia - UERN / professor.ramos@hotmail.com

 

Uma questão que se coloca na ordem do dia da política é sobre qual a posição que os partidos e movimentos organizados ocupam no cenário político em geral. Quem é de Esquerda e quem é de Direita? Esta pergunta para alguns não tem mais sentido, pois aceitam a hipótese de que não há mais Esquerda nem Direita na política. Mas, será que em um mundo marcado por interesses diversos e polarizados podemos falar em fim das disputas de classes? Será que tantas alianças e diversas composições dos governos atestam o fim da polarização entre esquerdas e direitas? Claro que não. A Direita e a Esquerda na política ainda existem. Não como meras contraposições geográficas, tais quais as posições dos girondinos, jacobinos e outros partidários em seus assentos no parlamento constituinte da antiga França pós-queda da Bastilha (símbolo do poder monárquico), a partir das quais surgiram estes termos, os que sentavam à esquerda eram mais críticos e radicais com as reformas e os que sentavam à direita eram mais conservadores. A Esquerda e Direita existem na política sim! Tendo em vista os interesses sociais, políticos e econômicos, que colocam de um lado os defensores da estratificante concentração de renda e poder em todos os setores que negam ao povo suas condições mínimas de dignidade e cidadania e de outro, os defensores de uma grande revolução social que acabe cada vez mais com a exploração do homem pelo homem. Esquerda e Direita existem entre os que defendem o fim ou a continuidade dos latifúndios e das grandes fortunas construídos a partir da opressão e miséria de muitos. Esquerda e Direita existem, sim!!! Se estes nomes em uma dualidade política inquestionável incomodam alguns, podemos citar outros nomes: Transformadores e conformadores (pregadores da conformação). Concordo com Rousseau, bem antes de Marx, que, desde que inventaram a propriedade privada (no sentido da apropriação do que deveria ser do domínio social) existe a miséria social crescente e a desigualdade social e econômica, que denomino de desigualdade egoísta (o que difere da desigualdade como diferença humana e cultural, que sempre deverá existir como garantia da liberdade e diversidade, que podemos chamar de desigualdade altruísta). Quem for a favor daquelas desigualdades (social e econômica), que representam a desigualdade de oportunidades e a exclusão, são conformadores com o atual estado de coisas (status quo); são, portanto, reacionários (a filologia nos ensina que reacionário representa o que é contra as mudanças e transformações) e declaradamente de Direita. Os contrários são revolucionários, por pretenderem transformar e mudar a situação de opressão e miséria; são, portanto, de Esquerda. Mas, a velha Esquerda dogmática ainda existe (seja leninista, stalinista, trotskista, maoísta, guevarista, ou mesmo a velha Esquerda tipo as das ditaduras do antigo e destruído socialismo real do Leste Europeu). No entanto, uma nova Esquerda surgiu, mas como novo tipo. Também, infelizmente, a velha Direita ainda existe, mesmo travestida com a roupagem liberal, democrata, etc., que planeja a concentração de poder para exploração e controle despótico da sociedade. Há ainda uma nova Direita, que como a nova Esquerda pensa em uma nova ordem e novos modelos híbridos de gestão política e de sociedade para garantir a governabilidade dos Estados. A nova Direita e a nova Esquerda, embora mantenham seu ideário pertinente, oriundo dos seus grupos sociais originários, se unificam em prol de mudanças sócias, econômicas e políticas nos marcos da possibilidade democrática da governabilidade; mesmo que isto resulte em uma tensão política para equacionar as divergências pontuais.

Quanto à nova Esquerda, ela prega uma nova revolução que deveria se iniciar com a desconstrução e superação do pensamento marxiano (diga-se de passagem, pensamento elaborado por Marx e Engels). A nova Esquerda acredita que devemos dar adeus ao proletariado (André Gorz), mas não adeus à possibilidade da revolução social e política. Isto é, a nova Esquerda não é o fim da Esquerda. A filosofia da nova Esquerda defende a iconoclastia e a ruptura com qualquer dogma. Afirma que é sempre importante ler os clássicos e rasgar o que não é atual, mas aproveitar o que é interessante para a realidade que se mostra no presente. Para ela é fundamental ser um tecelão de novos pensamentos, onde a tecitura de novas ideias deve ser nova a cada dia. Não fazendo e refazendo o velho como Penélope à espera de Ulisses, mas ser o Odisseu a singrar os bravios mares da teoria e da realidade, sem querer ser dono do conhecimento sobre o futuro. Norberto Bobbio é admirável em seus estudos sobre a teoria geral do direito e a teoria do ordenamento jurídico, bem como em seus estudos sobre o jusnaturalismo e juspositivismo. Ele chega a falar em uma espécie híbrida de sociedade (socialismo liberal ou liberalismo social). Em o Futuro da Democracia, cujo próprio subtítulo denuncia sua sábia e juridicamente correta opção em defesa das regras do jogo, fazendo ecoar o valor segurança jurídica e evidenciando sua leitura de Locke, também aponta as diversas promessas não cumpridas das democracias sob os regimes dominantes no capitalismo moderno. Bobbio critica os poderes ocultos que locupletados no Estado e integrados a uma mídia como uma forma de quarto poder negam a própria ideia de democracia. É um desserviço a Bobbio, querer afirmar que ele nega a polaridade entre os interesses estratégicos em jogo no atual cenário político. A terceira via ou terceira força é o que se apresenta como alternativa aos dois modelos ditatoriais (capitalismo selvagem e socialismo real despótico) existentes. A nova Esquerda aponta este caminho, por isto, a coalisão para garantir a governabilidade não invalida o ideal por uma nova sociedade, o que se dá por processos democráticos consentidos em uma nova hegemonia como direção intelectual e moral como nos ensina Gramsci.

 

Artigo publicado em: O JORNAL DE HOJE. 19/ago/2011. p. 2

Categoria: ARTIGOSRAMOS
Escrito por Francisco Ramos Neves às 23h36
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A MARCHA DO CORPO NA FILOSOFIA E A MARCHA DAS VADIAS NO MUNDO

Francisco Ramos Neves – Professor de Filosofia – UERN

professor.ramos@hotmail.com

 

Platão admite uma certa cesura entre alma e corpo chegando a conceder supremacia à alma como forma eterna de nossa essência, relegando o corpo à sua simples morada passageira, que pode corrompê-la por estar preso às impressões dos sentidos, que não deixam de afetar a alma em seu vínculo corpóreo. Em Platão o corpo é claramente desprezado e considerado como fonte de erros e limitações para a alma. Para ele, qualquer coisa que a alma queira conhecer com a ajuda do corpo, será sempre “radicalmente” enganada por ele (PLATÃO, Fédon. 65b). Esta renúncia do corpo como tentativa de afirmar um conhecimento puro atesta uma vontade de saber absoluto, que não passe pela possibilidade de contestação própria ao universo das contradições inerentes aos sujeitos pensantes situados em um mundo histórico. 

Esta filosofia da purificação da alma pela condenação e expurgação do corpo passa a representar as bases metafísicas de toda uma tradição. E em nome desta tradição surgem as punições sobre o corpo que negam ao mesmo a sua condição de ser como liberdade e de sua existência como consciência para si. As punições metafísicas como os discursos lógicos de negação da verdade outra sobre o ser do corpo se desdobra à violência física punitiva, como forma de purificação do indivíduo humano e como um alerta para a alma não se deixar sujeitar e se seduzir por aquele “corpo amaldiçoado”, como bem Platão relata (Fédon, 66b).

As ideias de Platão sobre o corpo, como fonte de guerras, desavenças, erros e ilusões que obscurecem a verdade, fizeram escola na metafísica da tradição filosófica. Estas ideias passaram pelo ascetismo medieval e expandiu-se até o dogmatismo do dualismo psicofísico cartesiano, que por sua vez, ecoa ainda hoje em algumas filosofias, embora estas ideias careçam de credibilidade e fundamentos na atualidade.

O corpo nesta concepção inicia sua marcha e seu calvário no Ocidente que o conduzirá às punições diversas, que passa pela irracionalidade da autoflagelação dos monges medievais que culmina com a perseguição da igreja aos adoradores do corpo, até a sua conformação em uma educação domesticadora e castradora nos tempos atuais, como veremos em Foucault, em sua ‘História da Sexualidade’ e em outras obras tais como ‘Vigiar e Punir’ e ‘Microfísica do Poder’. Um novo poder sobre a vida estabelece uma biopolítica com a intenção de controlar o indivíduo e a sociedade a partir do controle e domesticação do corpo. Nesta tradição que se inicia com Platão, o corpo é demonizado e são perseguidos todos os que o veneram. Tudo para não desviarem a atenção do mundo da produção material necessária ao universo fabril da sociedade de consumo.

 Agora, com movimentos de contestação, o corpo é resgatado pela filosofia do perspectivismo existencialista de Nietzsche, do humanismo existencialista de Sartre e Simone de Beauvoir e sobretudo pela ontologia fenomenológica de Merleau-Ponty e pela arqueogenealogia de Foucault, dentre outros como Pierre Weil. Muitos destes filósofos serviram e servem de referencial para alguns movimentos teóricos e sociais de revalorização do corpo. Não posso determinar se a “Marcha das vadias” segue algum referencial teórico-filosófico. O que é noticiado é que o movimento surgiu decorrente de uma indignação com um depoimento de um despreparado policial de Toronto, no Canadá, que em uma palestra sobre segurança em um campus universitário praticamente declarou que a onda de estupros ocorrida era devido ao fato das mulheres se vestirem como putas, vadias (do inglês: sluts). A Slut Walk (marcha das vadias) surgiu a partir daí e tem seduzido outras pessoas no mundo inteiro, chegando ao Brasil, inclusive aqui em Natal. O interessante neste movimento é que tem envolvido homens e mulheres em torno de uma manifestação de apoio à liberdade do corpo e que se desdobra à defesa do fim da intolerância no campo sexual. Intolerância esta que tem se manifestado em todas as escalas (religiosa, cultural, social, sexual, étnica, etc.)

 

 

O corpo das vadias é das vadias. “Meu corpo, minha regra”, grita algumas, fim da opressão e violência contra as mulheres, gritam outras. Ora, é claro que o policial estava errado, as roupas não dizem nada sobre o corpo; é o corpo que diz sobre as roupas, afinal, o corpo fala (Weil). Muitos fatos têm nos mostrado que dormita sob grandes, elegantes e recatadas roupas muitos corpos de vadias, que desnudos revelam seu caráter outro diferente do manifesto. É importante que este movimento não renuncie ao pensamento sobre o corpo em favor do mero uso do corpo. Sem o pensar sobre o corpo poderemos conduzir o próprio corpo a novas formas de escravidão e dependência a uma mente manipulada e seduzida por desejos forjados como forma de controle por parte de um biopoder reinante, que tenta sempre conduzir e controlar os impulsos e energia do corpo para interesses instrumentais de mercado. Mas, muitas pessoas, principalmente mulheres, têm levantado a seguinte questão: por qual motivo utilizaram o termo slut em vez de outro termo, como free women, por exemplo? Muitas mulheres têm dito que até participariam deste movimento, que de fato tem um propósito político de contestação da violência contra as mulheres, mas devido ao nome “vadia” ficaram receosas em participar.

 

 

 

Talvez por um protesto radicalizado mesmo, o movimento assume esta terminologia, para dizer que a sexualidade é um terreno de liberdade de escolha e que esta escolha não descaracteriza o ser social e político que o escolhe. A ética da vadiagem é a ética da escolha sexual, ela pode ser exercida só entre os dois, a quatro paredes, em uma doce vida conjugal, ou em uma forma de sexo livre e consentido em outros ambientes, ou pelo sexo profissional das prostitutas. Tudo deve ser um jogo de escolhas livres e consentidas harmonicamente entre as partes envolvidas. Um jogo que implica em muitas atitudes e posições sexuais, onde a violência como imposição contra a vontade e liberdade do outro jamais poderá existir, sob pena de se quebrar o contrato volátil, itinerante e fantasioso deste jogo amoroso. A vadiagem deve ser um jogo de desejos entre jogadores conscientes do seu uso e prática, deve ser um discurso sobre o corpo construído interativamente, livre da manipulação e instrumentalização do biopoder opressor que campeia de forma aterrorizadora em nossa sociedade. Deve ser um jogo que desperte a atenção dos “jogantes” para que fiquem atentos ao perigo da constante aplicação dos dispositivos históricos de controle sobre as massas, engendrados a partir da macro estrutura de poder das instituições até às formas microfísicas de controle e violência sobre o corpo educado e vigiado dos indivíduos.

 

 

 

Publicado em: O JORNAL DE HOJE, 28/jul/2011, p. 18

 

Categoria: ARTIGOSRAMOS
Escrito por Francisco Ramos Neves às 23h30
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A CEGUEIRA POLÍTICA DOS MIL OLHOS: acerca da questão da falsa luta contra o aumento do preço dos combustíveis.

Francisco Ramos Neves (Filósofo e observador político)

Em matéria publicada neste veículo de comunicação sob o título: “Combustíveis irão passar por reajustes ainda nesta semana”, na página ‘economia’ do dia 06 do corrente mês, contemplamos com um olhar de dejavú o que já estava acontecendo em muitos postos de vendas de combustíveis em Natal e região. Recentemente observamos uma campanha orquestrada por uma classe média aparentemente insatisfeita com a política de aumento abusivo praticada pelos postos. A campanha aparentemente demonstrava uma reação política espontânea que resultou em um movimento de contestação. Aparentemente, pois na verdade, aos olhos dos mais atentos aos meandros da política, o que de fato ocorria era a manifestação tardia de um grupo insatisfeito com os resultados políticos eleitorais a nível nacional, que tentava reagir contra tudo que pudesse ser ligado ao governo federal eleito.  Isto fica evidente com a campanha realizada contra os postos com a bandeira BR que são os representantes principais de uma distribuidora majoritariamente de controle estatal, no caso, a Petrobrás. Sim, esta bandeira responde por 40% do mercado de combustíveis; uma campanha de boicote a esta rede de postos implicaria, em tese, em uma reação em cadeia. Visto que, ao se sentir preocupado com a queda nas vendas o alvo iria se submeter ao mito da lei de mercado (queda nas vendas – redução de preços para atrair mais vendas o que resultaria em uma situação competitiva que forçaria às demais redes a reduzirem os preços para inserção igualitária nesta disputa do mercado). Tudo parecia muito mágico aos olhos dos mais desatentos, que assistiam e até ressonavam os gritos e afixavam os adesivos da ‘célebre’ campanha.  Primeiramente, não era uma campanha espontânea, visto que era bem organizada e previamente articulada com objetivos ideológicos (ideologia não no sentido estrito e gramsciano de cimento de coesão de um grupo social, mas ideologia no sentido lato de interesses dirigidos para fins instrumentais e estratégicos seguindo uma lógica de manipulação). Chegaram até contratar jovens para disputarem os já saturados espaços nos cruzamentos das ruas e avenidas, onde os semáforos nos obrigam a sermos bombardeados por panfletos de diversos matizes. Jovens motivados não por uma campanha consciente por coerência na política dos preços dos combustíveis, mas por faturarem algum bom e justo (diga-se de passagem) dinheiro com esta ação estratégica. Outro aspecto a salientar é que o movimento não era de massa, era elitista e não tinha caráter socialmente responsável, pois brigava para manutenção das condições privilegiadas de alguns garantirem seus veículos circulando em massa, congestionado e poluindo ainda mais o nosso mundo. Não se discutia a política de transporte coletivo viável e com qualidade para todos, o que reduziria os gastos com combustíveis e diminuiria em grandes proporções a poluição e o congestionamento quase intransponível do trânsito em nossas cidades. Finalmente enfatizo, sem precisar resgatar os clássicos da sociologia ou filosofia política, que neste modelo de capitalismo neoliberal não existem bandeiras, nem nacionalidades, nem culturas locais ou pátrias, mas apenas a grande nação do capital. O que verificamos é que de fato os postos com a bandeira BR reduziram o preço do etanol, o que não ocorreu com as outras redes. E o preço da nossa tão misturada gasolina permaneceu nas alturas e de forma unificada, para não dizer cartelizada, em todos os postos. Parece que alguns ganharam com a campanha, pois tiveram uma massa de consumidores dirigida às suas redes de lucros, e muitos outros pensavam enxergar a realidade... mas, nem com mil olhos a cegueira política pode ver além da superfície do discurso que mascara o poder, como diria Foucault.

PUBLICADO EM “O JORNAL DE HOJE”, DO DIA 08.07.2011, NA PÁGINA “OPINIÃO”, p. 18 – NATAL/RN

 

Escrito por Francisco Ramos Neves às 23h17
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ARTIGO PUBLICADO EM JORNAL

 

UFRN: QUANDO A MERITOCRACIA SUBJUGA O CRITÉRIO SOCIAL

Francisco Ramos Neves

Professor de Filosofia –UERN – professor.ramos@hotmail.com

   

Mais um resultado de seleção para isenção da taxa para inscrição ao vestibular da UFRN foi publicado no dia 11 do corrente mês provocando alegrias em uns e frustração em muitos outros. Frustração ampliada em muitos que, além de não conseguirem a isenção não vão poder realizar o seu sonho de pelo menos tentar entrar na UFRN, pois de fato não possuem condições financeiras para se inscreverem. Alguns que não foram selecionados se frustraram, mas graças às suas condições financeiras razoáveis poderão se inscrever. Razoáveis, pois, penso na hipótese de que apenas quem não possa facilmente ou de forma alguma pagar a taxa poderia se candidatar à isenção; não! Mesmo quem possua boas ou excelentes condições financeiras pode se candidatar ao processo.

Atualmente esta política de isenção tem seguido o princípio da meritocracia estudantil subjugando o critério social aplicado anteriormente. Antes a isenção era concedida para os que comprovavam carência financeira. Agora a COMPERVE adotou um critério que considero meritocrático, baseado no rendimento escolar dos candidatos à isenção. O processo se dá da seguinte forma: os interessados se inscrevem e apresentam no ato da inscrição histórico escolar comprovando seu rendimento escolar no ensino médio nas disciplinas de português e matemática. O mérito da obtenção das melhores médias por parte dos candidatos, em cada Escola, é o critério estabelecido para seleção dos isentos de acordo com uma quantidade determinada pelo CONSAD-UFRN (Conselho Superior de Administração). Este mérito é injusto e incoerente com a política de inclusão social na educação superior. A política de isenção das taxas do vestibular precisa ser ampliada no sentido de se fazer justiça, rompendo com o critério da meritocracia para assumir radicalmente o critério da justa medida primando pelo social. A isenção deve ser concedida de forma irrestrita pra todos que comprovem baixa renda.

Alguns poderão alegar problemas de falta de recursos. Ora, no Orçamento da UFRN existem os recursos predefinidos e considerados inalienáveis, algo em torno de 90%, são os recursos “carimbados”, de acordo com o jargão contábil; mas existe uma parte dos recursos gerais que são os denominados como ODC (Outras Despesas Correntes), representando cerca de 10 % da totalidade. Este percentual destinado a ODC são utilizados em pagamentos de contas básicas mensais tais como: água, energia, telefone, aquisição e consumo de material de expediente (papel, grampos, clipes, cartuchos de impressoras e até pagamento de serviços de reparo e manutenção de computadores e equipamentos em geral). Se os recursos para a realização do vestibular investidos pela COMPERVE (para isto servem as taxas cobradas) não podem ser retirados das verbas predefinidas, que se planeje para destinar uma pequena parte dos recursos para ODC. Muitas medidas podem ser realizadas para esta possibilidade tais como: redução e controle dos desperdícios com energia elétrica, água, telefone, etc.

A programação orçamentária para os anos seguintes deveria incluir os gastos com vestibular, e esta é uma decisão que não cabe apenas à Reitoria, a UFRN já criou mecanismos democráticos de participação descentralizada na discussão e planejamento do orçamento da instituição. Bastaria uma deliberação administrativa iniciada pelas diversas unidades administrativas descentralizadas e aplicada pelo conselho específico CONSAD, mediante planejamento orientado a esta finalidade.

Embora alguns recursos sejam “carimbados”, sabemos que a Universidade já conquistou certas autonomias, graças às suas seguidas e bem aceitas gestões democráticas, que têm sido inovadoras desde a primeira gestão do ex-reitor Ivonildo Rêgo, que tive a oportunidade de participar, enquanto estudante, da campanha vencedora em apoio à sua célebre chapa “Autonomia e Luta”.  No entanto, a UFRN precisa mudar em algumas coisas, sobretudo no que diz respeito á sua concepção de administração social dos seus recursos. Tudo parece funcionar como em uma grande fábrica que ao estilo clássico da administração científica está voltada para a organização, controle e gestão segura de sua estrutura interna. O funcionamento interno e estrutural da grande fábrica é o que importa para a administração mostrar que segue fielmente os ditames do manual de administração cientificamente estabelecida. Parece que tudo que importa é o funcionamento interno, e todo o orçamento só serve para este propósito, inclusive já se instituiu a chamada “garimpagem” por recursos extra orçamentários, para garantir seus objetivos internos. O problema é que esta “garimpagem”, que parte da instituição de taxas, o que inclui a taxa (R$100,00) recolhida com o vestibular, pode até mesmo facilitar o caminho para a lenta privatização da nossa instituição pública, que tem como finalidade constitucional garantir o ensino gratuito. Aristotelicamente falando, é bom se entender que, os que desejam entrar, em potência, já são da universidade e a instituição deve criar mecanismos eficientes para atualizar esta potência tornando-a ato. Portanto, é seu fim também democratizar e possibilitar o acesso como parte de um processo total de formação em sua estrutura.

A questão é a de tomada de uma consciência social de inclusão por parte da comunidade universitária. Uma ação prática que ultrapasse a redoma blindada da ação teórica tão discutida e propalada pelos intelectuais gestores da Universidade. Inclusão e democratização do acesso precisam sair do mero discurso retórico para o mundo real que contempla com desejos esta grande fábrica de profissões, vital para a sociedade, mas que precisa rasgar a roupagem da fabricação para vestir a nua roupa da realidade social que padece com a exclusão. 

Certo que a UFRN tem avançado em muito, muitas conquistas e melhorias e ampliações estão se apresentando e que também tem se preocupado em seu Plano de Desenvolvimento Institucional a servir aos propósitos sociais, formando profissionais para as demandas produtivas da sociedade, mas precisa ampliar este conceito para o de inclusão social. Já que não possui ainda vagas para todos que queiram realizar o sonho de um curso superior, pelo menos deveria começar com a garantia do direito distributivo de proporcionar a todos iguais oportunidades de poder disputar a possibilidade de entrar em seu universo de formação. Também precisa ser uma justiça reparativa ou corretiva tratando os diferentes como diferentes; quem pode pagar que pague, mas quem não pode comprovadamente pagar sem comprometer o seu orçamento familiar que seja concedida a isenção para a inscrição para realização do vestibular, o ideal seria que esta taxa fosse abolida para todos. Por mérito próprio e justo a maior parte das pessoas adquirem status financeiros satisfatórios, embora alguns adquiram isto por outros meios não justos, mesmo sendo legais, em alguns casos. No âmbito do Direito sabemos que o que é legal nem sempre é o mais justo ou meramente justo. Em uma sociedade repleta de desigualdades e exclusões de diversos tipos a justiça como equitativa pode acarretar injustiças e esta é a maior crítica feita á teoria da justiça de John Rawls. Pelo atributo da generalidade o Direito deve ser generalista, isto é, para todos, indistintamente, mas, de acordo com o atributo de validez, o Direito deve ser sobretudo legítimo, no sentido de ser justo.

 

Publicado em: O JORNAL DE HOJE. Natal, 21/JUL/2011. p. 18

Escrito por Francisco Ramos Neves às 23h15
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21/11/2011


ENCONTRO INTERNACIONAL E IV COL. WALTER BENJAMIN
MINHA COMUNICAÇÃO A SER APRESENTADA NO EVENTO

 

A CRÍTICA DA CRÍTICA: a desconstrução benjaminiana à filosofia da história do marxismo.

Francisco Ramos Neves

professor.ramos@hotmail.com

Resumo:

 

     A presente pesquisa apresenta uma leitura polêmica acerca das referências filosóficas de Walter Benjamin, nas “Teses de 40”, que nega sua filiação ao pensamento marxista. Contrariando alguns comentadores apresentamos um Benjamin crítico do marxismo, sobretudo, no que diz respeito à sua concepção de filosofia da história. Mesmo que o marxismo se apresente como uma teoria revolucionária, e muito tem contribuído para a superação do capitalismo, com a leitura hermenêutica benjaminiana evidenciamos uma crise em seus pressupostos sobre a filosofia da história. A análise desconstrutiva benjaminiana da razão instrumental envolve a tradição racionalista, submetida aos princípios do determinismo da causalidade histórica em um continuísmo. Nesta abordagem crítico-teórica o marxismo é identificado como parte desta tradição.

A aceitação incondicional da determinação absoluta que submete a vontade humana na interpretação e construção da história contraria o pensamento benjaminiano de desconstrução desta história destino, desta história catástrofe, que enquadra o movimento da história da humanidade em uma teleologia. Na concepção marxista o homem faz sua própria história, mas na medida em que descobre o curso inevitável do “vir-a-ser” que já “é”, que já está ontoteleologicamente predefinido pelas leis naturais, econômicas e deterministas da história. Por fim, podemos observar, a partir desta leitura hermenêutica da “Tese 1”, que Benjamin não concorda em seus escritos com os fundamentos marxistas da filosofia da história; visto que, Marx é considerado herdeiro da visão linear e escatológica da história compreendida como o continuum de uma marcha inexorável comandada por “leis naturais”.

 

Palavras-chave (cinco): Benjamin, desconstrução, filosofia da história, marxismo, crítica. 

 

 

Escrito por Francisco Ramos Neves às 20h06
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03/11/2011


ENCONTRO INTERNACIONAL E IV COL. WALTER BENJAMIN
Veja também o SITE DO EVENTO

PROGRAMAÇÃO

DIA 28 DE NOVEMBRO DE 2011

18h:00min - ABERTURA DO ENCONTRO

Local – Auditório do Centro de Humanidades da UECE

PROGRAMAÇÃO DE ABERTURA

Saudação do Pró-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa: Professor Jackson Sampaio;

Diretor do Centro de Humanidades: Professor Marcos Colares;
Coordenador do Mestrado Acadêmico em Filosofia: Professor Emiliano Aquino;

Pró-Reitor de Graduação da Universidade Federal do Ceará: Professor Custódio Luís Silva de Almeida;

Coordenador do Departamento de Filosofia: Professor Luciano Furtado Sampaio.

20h:00min - PALESTRA

- CUSTÓDIO ALMEIDA (UFC)

"A Educação como exercício para a autonomia em Walter Benjamin".

COQUETEL

Recepção dos Participantes do Corpo Docente e Discente, Palestrantes Convidados e do público em geral

DIA 29 DE NOVEMBRO DE 2011

PROGRAMAÇÃO DA MANHÃ

8h:00min - MESA-REDONDA

- EDUARDO JORGE OLIVEIRA TRIANDOPOLIS (UECE)

"Serenidade e Espera em Martin Heidegger e Walter Benjamin".

9h:00min.

- HILDEMAR LUÍS RECH (FACED)

“Poder, violência, lei e desejo em Walter Benjamin e outros autores”.

10h:00min.

- TEREZA DE CASTRO CALLADO (UECE)

“Ponderações sobre a repetição infernal da modernidade no contexto de Jenseits des Lustprinzips e sua desarticulação no Jetztzeit”.

11h:00min – DEBATE

PROGRAMAÇÃO DA TARDE

14h:00min – 17h:00min - MINI-CURSO

- RAQUEL CÉLIA SILVA DE VASCONCELOS, THIAGO MOTA e FERNANDO FACÓ

“Diferença e Significação: reflexões sobre "Linguagem", "Escrita" e "Política", com Benjamin, Derrida e Lyotard”.

Local - Laboratório II

14h:00min-18h:00min – COMUNICAÇÕES

Local - Laboratório I e Sala de Estudos do CMAF

16h:00min – EXIBIÇÃO DE FITAS CINEMATOGRÁFICAS

"O Anjo de Theo Anghelopoulos"

Argumento benjaminiano

A Filosofia da História: Barbárie e apocatástase histórica

Local – Laboratório I

17h:30min - FÓRUM

DIA 30 DE NOVEMBRO DE 2011

PROGRAMAÇÃO DA MANHÃ

MESA-REDONDA

8h:30min

- ARMINDA SERPA (UECE)

“Escritos sobre um corpo: a letra de Scholemcomo signo de Benjamin”

9h:30hmin

- HORST NITSCHACK (Alemanha)

“Experiência e Subjetividade”

10h:30min

- VINCENZO BONACCORSI (Florença- Itália)

“O Anjo da História de Walter Benjamin e o Anjo de Theo Anghelopoulos( La terza ala) “

11h:00min – DEBATE

PROGRAMAÇÃO DA TARDE

14h:00min- 18h:00min - COMUNICAÇÕES

Local – Salas 42 e 43

14h:00min – 17h:00min – MINI-CURSO

- RAQUEL CÉLIA SILVA DE VASCONCELOS, THIAGO MOTA e FERNANDO FACÓ

“Diferença e Significação: reflexões sobre "Linguagem", "Escrita" e "Política", com Benjamin, Derrida e Lyotard”.

Local - Laboratório II

- MATEUS GONÇALVES DE MEDEIROS

“Verdade e Conhecimento em Walter Benjamin”

Local – Laboratório II

16h:00min - EXIBIÇÃO DE FILME

“Zellig” de Wood Allen.

Argumento Benjaminiano

As metamorfoses da Consciência Burguesa

Local - Laboratório I

18:00 - FÓRUM

Escrito por Francisco Ramos Neves às 22h44
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DIA 1 DE DEZEMBRO DE 2011                                                               

PROGRAMAÇÃO DA MANHÃ

MESA-REDONDA

9h:00min

- EMILIANO AQUINO

"Imagem dialética e tradição dos vencidos em Walter Benjamin"

Coffee Break

10h:40min

- ILANA AMARAL

"Walter Benjamin: linguagem, destrutividade, história"

PROGRAMAÇÃO DA TARDE

14h:00min – EXIBIÇÃO DE FILME

Die Welle (A onda) de Dennis Gansel

Local – Laboratório I

Argumento benjaminano

Ideologia fascista e percepção

18h:00min - FÓRUM

16h:00min as 18h:00min - COMUNICAÇÕES

.........PROGRAMAÇÃO DA NOITE

Local - Auditório Luz Gonzaga - UFC

18h:00min

- CRISTIÁN SUCKSDORF (Buenos Aires)

"El tiempo de la revuelta: reflexiones en torno al concepto de Jetztzeit de Walter Benjamin"


19h:00min

- GUNTER KARL PRESSLER (Belém do Pará)

"O jovem Benjamin e sua formação filosófica entre 1912 e 1923: entre Kunstkritik e Trauerspielbuch"

 

20h:00min - DEBATE

DIA 2 DE DEZEMBRO DE 2011

PALESTRA

8h:30min -

- MARIA JOÃO CANTINHO (Lisboa )

“Os efeitos nefastos da Fotografia”

9h:30min

- MÁRCIO SELIGMAN-SILVA

"Teoria da fotografia de Walter Benjamin na era da síntese técnica de imagens"

10h:00min
- DEBATE

ENCERRRAMENTO

Sorteio de livros e cartazes. Lançamento dos “Cadernos Walter Benjamin” com apresentação da Professora Drª Maria João Oliveira Sequeira Cantinho (Lisboa).

Escrito por Francisco Ramos Neves às 22h37
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15/06/2010


I EPEFIL - UERN

I ENCONTRO DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA - UERN      

                           

                       O PENSADOR QUIOCO (Angola)

 INFORMAÇÕES E FICHA DE INSCRIÇÃO:

www.eventosfilosofia.uern.zip.net

CONTATO: eventosfilosofia.uern@hotmail.com               

              (084)9964-1772

 

Escrito por Francisco Ramos Neves às 23h58
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I EPEFIL-UERN

I ENCONTRO DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA

 UERN

12 a 15.07.2010

FILOSOFIA, ESTÉTICA E CULTURA

             P R O G R A M A Ç Ã O

12.07.2010 (Segunda-feira)

19h00 – ABERTURA – Auditório da UFERSA

19h20 – Apresentação do CORAL UERN

19h50 – CONFERÊNCIA: A arte como celebração da vida.

        Conferencista: Profa. Dra. Scarlett Marton –USP

Mediador: Prof. Dndo. Francisco Ramos Neves - UERN

        LOCAL: Auditório da UFERSA

13.07.2010 (terça-feira)

08h00/11h30 – MANHÃ CULTURAL: Oficina de expressão corporal

                Com o Grupo teatral: CIA MÁSCARA (Mossoró)

                LOCAL:  Sala de vídeo - FAFIC

14h00/ 17h00 – COMUNICAÇÕES Salas de Aulas

Escrito por Francisco Ramos Neves às 23h52
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